Fernão de Oliveira

Por Elisabeta Mariotto

Fernão de Oliveira nasceu em Aveiro, em 1507. Foi um homem de múltiplos interesses, tendo desenvolvido atividades como gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval.

Iniciou os estudos, aos nove anos, no Convento de S. Domingos daquela cidade, tendo sido transferido, em 1520, para o convento da mesma ordem, em Évora. Aos 25 anos, fugiu para Castela, onde se dedicou ao estudo da língua espanhola e se tornou clérigo secular. Em 1536, regressou a Lisboa, dedicando-se ao ensino e publicando a primeira gramática da língua portuguesa, intitulada Grammatica da Lingoagem Portuguesa. A partir desta publicação, passou a integrar o grupo dos gramáticos do Renascimento que se dedicaram à descrição das suas línguas maternas. Por volta de 1541, partiu para Itália, onde se dedicou à diplomacia secreta, provavelmente relacionada à complexa questão a respeito dos cristãos-novos que o rei D. João III manteve com a Santa Sé. Em 1543, regressou a Portugal, onde foi ameaçado de ser denunciado ao Tribunal da Santa Inquisição, por heresia. Temendo a perseguição do Santo Ofício, Fernão de Oliveira deixou o sacerdócio e fugiu para a França, onde se alistou como soldado e serviu na guerra contra a Inglaterra.

Enquanto esteve em França, Fernão de Oliveira dedicou-se à marinha, desenvolvendo importantes estudos sobre a navegação, a guerra naval e a construção de embarcações. Esses estudos contribuíram para o desenvolvimento naval e a expansão marítima portuguesa, no século XVI. Escreveu várias obras sobre o tema, embora apenas Arte da Guerra do Mar tenha sido publicada, em 1555. Esta foi uma obra inovadora por apresentar um verdadeiro tratado sobre a guerra naval, abordando tanto os aspetos teóricos como práticos da questão. Por sua vez, a obra Ars Nautica, escrita em 1570, é o primeiro tratado enciclopédico mundial de matérias referentes à navegação, a guerra naval e a construção de embarcações. Não há registos de obras com tamanha extensão e profundidade sobre o tema na literatura europeia da época. Foi escrita em latim, o que evidencia que o seu público-alvo não eram os homens do mar, mas os humanistas que, como o autor, se interessavam por assuntos referentes à marinha. Noutra obra, o Livro da fábrica das naus, de 1580, Fernão de Oliveira fornece regras teóricas para a construção de navios e sublinha as significativas contribuições lusitanas para o progresso dos métodos de construção naval. Foi o primeiro texto escrito em português sobre a arquitetura naval. Tinha um caráter eminentemente teórico, com preceitos técnicos claros e ordenados e, da mesma forma que Ars Nautica, não era dirigido aos oficiais da marinha, mas aos intelectuais.

Fernão de Oliveira foi muito perseguido pela Santa Inquisição. Foi acusado, inúmeras vezes, de heresia e esteve preso nas masmorras do Santo Ofício, de 1547 a 1550. Depois de ter sido convocado várias vezes para abjurar os seus erros, fazer confissões públicas e pedir perdão a Deus, conseguiu ser transferido para o Mosteiro dos Jerónimos, onde foi condenado a viver enclausurado até que pudesse sossegar a sua consciência e salvar a sua alma. Em 1551, o cardeal D. Henrique concedeu-lhe a liberdade, sob a condição de não se ausentar do país sem a sua autorização. No entanto, sempre dotado de um espírito aventureiro, Fernão de Oliveira embarcou numa expedição organizada por D. João III a África, em 1552. Esta, contudo, foi mal sucedida, resultando na prisão dos seus integrantes. Oliveira foi escolhido para negociar os resgates dos prisioneiros, regressando a Lisboa. Partiu para a Beira Alta, em 1554, onde foi denunciado ao Tribunal do Santo Ofício, sendo, novamente, preso por atentado contra a moral cristã. Depois de obter a liberdade, Oliveira exerceu as atividades de revisor ou corretor da Imprensa da Universidade de Coimbra e de professor de retórica. Em 1556, regressou a França e, à partir de então, poucos registos são encontrados sobre a sua pessoa. Acredita-se que tenha vivido até o ano de 1581, aos 74 anos, tendo apresentado uma longevidade extraordinária de acordo com os parâmetros da época.

Um dos aspetos que caracterizaram Fernão de Oliveira foi o espírito crítico e humanista. O seu fascínio pelo mar, pela arte de navegar e pela expansão marítima levou-o a desenvolver também um fascínio pelas línguas, especialmente a portuguesa. Publicou, em 1536, a primeira gramática da língua portuguesa, que tinha como objetivo primordial a perpetuação da memória daquela língua. Foi publicada num período em que Portugal procurava afirmar sua a autonomia nacional em relação às outras nações. Oliveira intencionava, portanto, formalizar o sistema de escrita em português, desenvolvendo um sistema linguístico coeso, que pudesse refletir a coesão e o desenvolvimento da nação portuguesa. A nova realidade das expansões marítimas demandavam a transmissão das experiências para além da oralidade, tornando-se necessário registá-las. Além da necessidade de desenvolvimento da escrita para realizar os registos sobre as grandes expedições e os descobrimentos, também se observava, na época, uma manifestação do sentimento pátrio aflorado nos escritores. A gramática de Fernão de Oliveira surgiu, portanto, como resultado de uma demanda da expansão marítima de formalização da escrita da língua portuguesa. Oferece um conjunto de reflexões de caráter linguístico e cultural, na tentativa de propor uma norma para o português do século XVI, não seguindo, no entanto, o modelo das gramáticas até então produzidas. Trata de formas gramaticais, da fonética, da lexicologia, abordando especialmente alguns estudos etimológicos e da sintaxe.

Como historiador, Fernão de Oliveira sustentou a independência portuguesa contra a anexação espanhola, defendendo a posição da burguesia comercial e marítima, dos mesteirais, da arraia-miúda do campo e da cidade, contra a grande aristocracia portuguesa.

Bibliografia Ativa

Bibliografia Passiva

  • Buescu, M. L. C. (1978). Gramáticos Portugueses do Século XVI. Lisboa: Instituto de Cultura Portuguesa.
  • Costa, S. (1984). Historiografia da língua portuguesa : século XVI. 1.ª ed. Lisboa
  • Cortez Pinto, A. (1948). Da Famosa Arte da Imprimissão: da Imprensa em Portugal às Cruzadas d'além-mar. Lisboa: Ulisseia Limitada.
  • Oliveira, F. (1975). A Gramática da Linguagem Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional.
  • Oliveira, F. (1991). Liuro da Fabrica das Naos. Lisboa : Academia de Marinha.
  • Passos, T. F. (1994). Fernão de Oliveira : 1.º gramático de Língua Portuguesa. Lisboa: Gazeta de Poesia.
  • Silva Neto, S. (1986). História da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Livros de Portugal.
  • Viterbo, S. (1924). O movimento tipográfico em Portugal no século XVI: apontamentos para a sua história. Coimbra: Imprensa da Universidade.
Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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