João de Andrade Corvo

Por Elisabeta Mariotto

João de Andrade Corvo nasceu em Torres Novas, a 30 de janeiro de 1824. Dez anos depois, transferiu-se com a família para Lisboa, realizando os seus estudos na capital portuguesa. Foi um homem de múltiplos interesses. Frequentou os cursos de Matemática e Ciências Naturais, Engenharia e Medicina e desempenhou as funções de agrónomo, professor, escritor e político.

Como agrónomo, desenvolveu vários estudos sobre a agricultura e foi professor do Instituto Agrícola e da Escola Politécnica de Lisboa. Publicou, na Coleção Biblioteca de Agricultura e Ciências, algumas obras dedicadas ao ensino agrícola. Desenvolveu desde cedo o gosto pela poesia, publicando poesias e artigos em vários jornais e revistas da época. Foi um dos fundadores da Sociedade Escolástica Diplomática, a que pertenceram Mendes Leal, Tomaz de Carvalho, Luiz Augusto Palmeirim, entre outros. Escreveu notáveis romances, como Um ano na Corte (1850-1851), a sua obra mais popular, e Sentimentalismo (1871). Também foi autor de textos dramáticos históricos, como Um Conto ao Serão (1852), O Astrólogo (1859) e O Aliciador (1859), peças às quais o público respondia com entusiasmo. Como político, iniciou sua carreira, em 1865, como deputado, assumindo, no ano seguinte, o cargo de ministro das obras públicas até 1868, contribuindo para o desenvolvimento da rede ferroviária nacional. Em 1869, foi enviado para Madrid para exercer o cargo de Ministro de Portugal, permanecendo um ano na capital espanhola. Foi ministro dos negócios estrangeiros de Portugal, entre 1871 e 1878, durante o governo de Fontes Pereira de Melo. Faleceu a 16 de fevereiro de 1890.

Andrade Corvo foi um homem que se dedicou ao desenvolvimento de Portugal. Acreditava que o crescimento do país dependia do investimento no ensino, considerando que a civilização, a liberdade, o progresso e a indústria do país estariam diretamente ligados ao nível de instrução do seu povo. Além disso, acreditava que Portugal tinha forças e oportunidades suficientes para se reerguer enquanto potência e, para tanto, deveria dedicar-se ao trabalho, à ciência, à educação moral e à correta administração pública. Só assim o país conseguiria o respeito que outros Estados de pequeno porte como a Dinamarca, a Bélgica e a Holanda haviam conquistado.

Enquanto ministro dos negócios estrangeiros, lançou, em 1877, um conjunto de iniciativas de exploração destinadas a conhecer a zona que separava Angola de Moçambique. Dez anos mais tarde, durante o mandato do ministro dos negócios estrangeiros Henrique de Barros Gomes, lançou-se o projeto que ficou conhecido como "Mapa cor-de-rosa". Neste projeto, Portugal manifestava a sua pretensão a unificar os territórios de Angola e Moçambique numa vasta faixa que ligava o Oceano Atlântico ao Oceano Índico. No entanto, isto provocaria uma crise nas relações diplomáticas de Portugal com o Reino Unido, pois ambos manifestavam o interesse em dominar a mesma região. O objetivo inglês era construir uma ferrovia que atravessaria todo o continente africano, ligando o Cairo à Cidade do Cabo.

Andrade Corvo foi um homem à frente do seu tempo. Anteviu os perigos dos ideais germânicos, fundados sobre a identidade de raça e o desejo de supressão dos pequenos estados para a formação de um grande império. Considerava que as teorias antropológicas que vigoravam no século XIX e que dividiam a humanidade em distintas raças eram uma fantasia perigosa e que tinham sido inventadas para justificar as violências e o desejo de dominação dos grandes impérios. Acreditava que não existia fundamento na separação da humanidade em raças, constituídas por nacionalidades específicas, pois os Estados Unidos representavam o exemplo oposto de que uma nação erguida pela convergência de povos poderia se edificar e atingir um alto nível de desenvolvimento capaz de conquistar o respeito das outras nações desenvolvidas. Desta forma, Andrade Corvo considerava que a única garantia de superação das ameaças que enfrentavam as pequenas e médias nações europeias, no confronto das ambições imperiais germânicas, seria a criação de uma instituição que regulasse o direito internacional e a autonomia das nações. Além disso, também esteve envolvido em projetos de desenvolvimento das colónias portuguesas, na criação de infra-estruturas nas colónias e no processo de abolição da escravatura.

João de Andrade Corvo é considerado, por muitos, o pai da diplomacia portuguesa moderna. Revelou, durante toda a sua vida, uma capacidade única de analisar os principais desafios políticos e as estratégias que Portugal deveria adotar para se reerguer como potência e conquistar o respeito perante o mundo.

Bibliografia ativa

  • Lemos, R. S. (2007). João de Andrade Corvo: ficha bio-bibliográfica. Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Edição Eletrónica: http://www.fd.unl.pt/ConteudosAreasDetalhe_DT.asp?I=1&ID=1736
  • Calafate, P. (2006). Guerra Junqueiro. In: Portugal como problema – Século XIX: A decadência. Lisboa : Fundação Luso-Americana.
  • Calafate, P. (2009). O Pensamento Político e Geoestratégico de João de Andrade Corvo. Revista Estudos Filosóficos. Vol. 3 (67-75).
  • Bibliografia passiva
  • CORVO, J. A. (1854) - Memória sobre a mangra : ou doença das vinhas nas ilhas da Madeira e Porto Santo. Lisboa : Typ. da Academia Real das Sciencias.
  • CORVO, J. A. (1868) - A questão do caminho de ferro de sueste. Lisboa : Typographia Portugueza.
  • CORVO, J. A. (1863) - Um ano na corte. Porto : Em casa da viuva Moré.
  • CORVO, J. A. (1866) - A instruçäo publica : discurso pronunciado nas sessöes de 9, 10 e 11 de Abril de 1866. Lisboa : Typ. da Sociedade Typ. Franco-Portugueza.
  • CORVO, J. A. (1870) – Perigos. Lisboa : Typ. Universal.
  • CORVO, J. A. (1871) - O sentimentalismo. Coimbra : Imprensa da Universidade.
  • CORVO, J. A. (1874) - Aboliçäo da emigraçäo de chinas contratados em Macau : relatório e documentos apresentados às cortes na sessäo legislativa de 1874. Lisboa : Imprensa Nacional.
  • CORVO, J. A. (1875) - Agricultura : relatório sobre a Exposiçäo Universal de Paris. Lisboa : Imprensa Nacional.
  • CORVO, J. A. (1881) - Da água para as regas. Lisboa : Empreza Commercial e Industrial Agrícola.
  • CORVO, J. A. (1881) - Economia política para todos. Lisboa : Empreza Commercial e Industrial Agricola.
  • CORVO, J. A. (1883) - Os motores na indústria e na agricultura Lisboa : Empreza Commercial e Industrial Agricola, 1883.- 158 p. : il. ; 16 cm.
  • CORVO, J. A. (1883-1887) - Estudos sobre as províncias ultramarinas. Lisboa : Typografia Real das Sciencias.
Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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