José Leite de Vasconcelos

Por Elisabeta Mariotto

José Leite de Vasconcelos Pereira nasceu em Ucanha, concelho de Tarouca, a 7 de julho de 1858. Passou a infância e a adolescência no meio rural, onde teve contacto com as tradições e os costumes locais. Aos 18 anos, deixou a Beira para ir viver no Porto, onde exerceu a atividade de docência, num liceu, para ajudar no sustento da sua família.

Licenciou-se em Ciências Naturais, em 1881, e em Medicina, pela Escola Médico-Cirúrgica do Porto, em 1886. Durante o curso de Medicina, escreveu uma das suas primeiras obras: Tradições Populares Portuguesas. Na sua tese de licenciatura, intitulada A Evolução da Linguagem, já dava sinais das duas paixões que iriam determinar a sua carreira: a filologia e a arqueologia. Exerceu a profissão de médico durante apenas um ano, assumindo as funções de subdelegado de saúde do Cadaval, distrito de Lisboa. Em 1888, tomou posse na Biblioteca Nacional, onde trabalhou durante 23 anos. Em 1901, doutorou-se em Filologia, com honras, na Universidade de Paris, com a tese Esquisse d'une dialectologie portugaise. Empenhou-se na criação de um museu dedicado ao conhecimento das origens e tradições do povo português, criando o Museu Etnográfico Português (atual Museu Nacional de Arqueologia). Inicialmente, este museu estava instalado numa sala da Direção dos Trabalhos Geológicos, tendo sido transferido, em 1900, para uma ala do Mosteiro dos Jerónimos. Em 1911, foi convidado a lecionar Filologia Clássica na recém-criada Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sendo, assim, obrigado a abandonar a Biblioteca Nacional, mas sem deixar de dirigir o Museu Etnográfico. Na Faculdade de Letras, lecionou também Numismática, Epigrafia e Arqueologia. Reformou-se em 1929, quando começou a dedicar-se, exclusivamente, à escrita. Faleceu em Lisboa, a 17 de maio de 1941, deixando, como legado, obras que compreendem as áreas da etnografia, filologia, arqueologia, numismática e epigrafia.

Leite de Vasconcelos é considerado o fundador da dialetologia portuguesa. Desenvolveu o primeiro estudo sobre o Mirandês, publicado em 1882, sob o título O Dialecto Mirandez, estudo este que foi, posteriormente, aprofundado e publicado numa obra de dois volumes, intitulada Os Estudos de Filologia Mirandesa (1900-1901). Em 1894, publicou a Carta Dialectológica de Portugal Continental, na qual distingue os dialetos portugueses. Em 1901, na sua tese de doutoramento, acrescentou os dialetos insulares (açoriano e madeirense) e os dialetos do "ultramar" (brasileiro e indo-português), além dos dialetos crioulos, o português dos judeus (Amesterdão e Hamburgo) e o Galego. Continuou a desenvolver seus estudos sobre os dialetos portugueses, acrescentando ao Mapa Dialectológico de Portugal Continental (1929) três variedades do dialeto de Trás-os-Montes: Peso da Régua, Alijó e Boticas (Barroso).

Os estudos de Leite de Vasconcelos serviram de inspiração e orientação a vários linguistas, que se dedicaram a continuar o trabalho de investigação e de descrição dos dialetos portugueses. Paiva Boleó publicou, em 1958, juntamente com Maria Helena Santos Silva a obra Mapa de Dialectos e Falares de Portugal Continental, um estudo baseado nas investigações de Leite de Vasconcelos. Lindley Cintra também se dedicou exaustivamente ao estudo sobre os dialetos portugueses. Em 1971, elaborou uma Nova Proposta dos Dialectos Galego-Portugueses, apresentando, anos mais tarde, Estudos de Dialectologia Portuguesa (1984). Em 1992, publicou o Mapa dos Dialectos de Portugal Continental e da Galiza, onde expande a classificação dos dialetos portugueses feita por Vasconcelos, distinguindo os dialetos galegos, os dialetos portugueses setentrionais, os centro-meridionais e os dialetos leonenses. Todos estes estudos foram influenciados pelas investigações de Leite de Vasconcelos, o que nos leva a concluir que a sua obra foi de extrema importância para o desenvolvimento da linguística em Portugal.

Segundo Manuel Heleno (1960), Leite de Vasconcelos dominava as mais variadas fontes de saber que lhe permitiam um poder de se relacionar de forma única com história da cultura portuguesa. Além disso, sua obra caracterizou-se por um profundo sentido nacional devido à aplicação das conquistas da ciência universal ao campo português, tendo todo o seu trabalho aberto novas perspetivas à ciência em Portugal.

Bibliografia ativa:

Bibliografia passiva:

  • Vasconcelos, L. (1882). O Dialecto Mirandês. Revista Lusitana. Lisboa.
  • Vasconcelos, L. (1894). Carta Dialectológica de Portugal Continental. Lisboa.
  • Vasconcelos, L. (1897). Mapa Dialetológico do Continente Português. Lisboa.
  • Vasconcelos, L. (1900-1901). Os Estudos de Filologia Mirandesa. Lisboa.
  • Vasconcelos, L. (1901). Esquisse d'une dialectologie portugaise. Paris. Université. (Edição portuguesa: Esquisse d'une dialectologie portugaise. Lisboa. Instituto Nacional de Investigação Científica / Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. 3ª edição. 1987).
  • Boleó, P. & Silva. M. H. S. (1958). Mapa de Dialectos e Falares de Portugal Continental. Coimbra: Universidade.
  • Cintra, L. (1971). Nova Proposta dos Dialectos Galego-Portugueses. In: Boletim de Filologia XXVI. Lisboa: Centro de Estudos Filológicos.
  • Cintra, L. (1984). Estudos de Dialectologia Portuguesa. Lisboa: Sá da Costa.
  • Cintra, L. (1992). Mapa dos Dialectos de Portugal Continental e da Galiza. In: Atlas da Língua Portuguesa na História e no Mundo. Lisboa: Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Lisboa: União Latina.
Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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