Rafael Bordalo Pinheiro

Por Matilde Tomaz do Couto

Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) revelou-se um espírito brilhante, ímpar de criatividade, que aplicou a uma contínua intervenção atenta e crítica à vida portuguesa. Permanecem de surpreendente atualidade os seus comentários à política, à economia, à sociedade da época, nas revistas de caricatura e humor que editou, atitude que não raro refletiu na cerâmica que, a partir de 1884, logra revitalizar nas Caldas da Rainha.

Rafael Augusto Prostes Bordalo Pinheiro nasce na Rua da Fé, em Lisboa, aos 21 de março de 1846, terceiro filho duma extensa prole de doze irmãos, a quem se seguiria o célebre retratista Columbano (1857-1929). Foram seus pais o pintor romântico Manuel Maria Bordalo Pinheiro (1815-1880) e D. Maria Augusta do Ó Carvalho Prostes.

Com nove anos, ingressa no Liceu Central das Mercieiras e, quatro anos após, na Academia Real das Belas Artes de Lisboa, onde virá a frequentar classes de Desenho até 1871. Entretanto, em 1865, matricula-se ainda no Curso Superior de Letras, quando já tivera também, com apenas catorze anos, o seu primeiro contacto com o palco, ao integrar o elenco duma peça que sobe à cena no Teatro Garrett. Este interesse que muito cedo despertara e o acompanhará por toda a vida certamente o motiva a inscrever-se, por essa época, no Curso de Arte Dramática do Conservatório de Lisboa. Todavia, não chega a concluir os estudos em qualquer destas áreas, pois o cumprimento disciplinado dos programas escolares escapa ao seu temperamento irrequieto.

Em 1863, dá início à vida profissional como amanuense da secretaria da Câmara dos Pares, ocupação que dificilmente conviria ao seu caráter, mas que parece manter até 1875.

Data de 15 de setembro de 1866 o casamento de Rafael com D. Elvira Ferreira de Almeida, enlace romanesco apadrinhado por Júlio César Machado (1835-1890), que se realiza contra a vontade da família da noiva. Do tempo então passado na Quinta da Broa, na Golegã, resultam apontamentos a desenho e aguarela tomados do natural, que fixam a paisagem e os costumes da região.

Rafael Bordalo Pinheiro ... Genuinamente português por constituição e por temperamento, de olhos pretos, nariz grosso, cabelo crespo, tendendo para a obesidade, ele é um sensual, um voluptuoso, um dispersivo, um desordenado. Uma das mais belas virtudes que ele não tem, é a que consiste em vencer os impulsos da natureza. Desgraçadamente, observa-se com frequência que os homens rígidos, que mais exemplarmente triunfam das próprias paixões, não triunfam de mais nada.

Ramalho Ortigão, 1891

Estreia-se nos salões da Sociedade Promotora das Belas Artes em Portugal, em 1868, no qual seu pai também figura, não passando despercebidos os trabalhos a aguarela que apresenta de tipos populares da capital, como a “Vendedeira de Queijos”, o “Vendedor de Fósforos” ou o “Vendedor de Palitos e Rocas”. Na exposição de 1870, denunciam-se já os seus predicados de fino observador e a intuição do caricaturista, em obras intituladas “O Espirra-Canivetes”, “Os Jogadores de Gamão” ou a série de “O Homem que ri”. Até 1874, Rafael mantém uma presença assídua nos certames da Promotora, com cenas de costumes, algumas notadas pelo seu realismo.

Contudo, a carreira artística de Bordalo encontraria outras vias de desenvolvimento, passando ainda pelo jornalismo, a ilustração e a decoração. Como exemplo, cite-se o livro de Júlio César Machado, “Os Teatros de Lisboa” (1875), que é documentado com perto de 250 belos desenhos de Rafael Bordalo. De notar que, entre 1873 e 1875, colabora como ilustrador nos periódicos estrangeiros “Illustración de Madrid”, “Illustración Española y Americana”, “El Mundo Cómico”, “El Bazar” e em várias revistas francesas e inglesas, além do prestigiado “Illustrated London News”, que lhe dirige convites de trabalho em Londres, que Bordalo não aceita.

Mas será com a caricatura artística que o génio de Rafael Bordalo Pinheiro deixará uma marca indelével e inconfundível no século XIX português. O seu lápis traduz no quotidiano a perspicaz e oportuna observação do humor bordaliano, caracteriza a política do País escalpelizando os seus ícones, cria símbolos das realidades nacionais, dos quais o Zé Povinho se ergue como a imagem dum povo explorado e sofredor, mas conformado com a sorte que lhe cabe. Bordalo perfila-se como o crítico, mas também como o lutador em defesa dos valores e da dignidade de Portugal. O momento mais alto e mais sentido será, sem dúvida, o da crise do “Ultimatum” britânico de 1890, que motiva inúmeras páginas patrióticas e a personificação da Inglaterra na figura anafada e arrogante de John Bull.

Em 1870, o sucesso obtido por uma caricatura alusiva à peça em cena intitulada “O Dente da Baronesa” revelara um talento e iria despoletar uma paixão. Esse ano vê surgir sucessivamente o espirituoso álbum de caricaturas “O Calcanhar d’Aquiles”, a folha humorística “A Berlinda”, da qual saem sete números, e “O Binóculo”, periódico semanal à venda apenas nos teatros, com quatro números publicados. Deu ainda à estampa o “Mapa de Portugal”, cujo êxito foi assinalado por vendas superiores a 4000 exemplares, no espaço de um mês.

Data de 1875 a iniciativa então de maior alcance, com a criação do primeiro jornal dedicado à crítica social: “A Lanterna Mágica”. São companheiros de Bordalo neste empreendimento Guilherme de Azevedo (1840-1882) e Guerra Junqueiro (1850-1923), um projeto que faz a crónica dos factos sociais, enquanto tece a crítica às políticas e às instituições. Neste contexto, nasce a figura do Zé Povinho, tão acertada no seu conteúdo, que permanece no imaginário português com uma reforçada carga simbólica.

Definia-se o vasto campo da atuação de Bordalo, não só de expressão artística e de vivacidade de espírito crítico, mas de intervenção cívica e patriótica.

Surgindo nessa época uma proposta de colaboração em “O Mosquito”, jornal brasileiro de humor, no verão de 1875, parte para o Rio de Janeiro, onde viverá quatro anos, apesar duma difícil adaptação ao meio. A sua permanência no Brasil fica ainda assinalada pela criação de duas revistas de caricaturas: o “Psit!!!” (1877) e “O Besouro” (1878-79). É a oportunidade para nascerem do seu lápis novas personagens-tipo da sociedade carioca, tais como o Psit!, o Arola ou o Fagundes.

Em Lisboa, publicava-se o “Álbum de Caricaturas: Frases e Anexins da Língua Portuguesa” (1876), ilustrado com desenhos de Bordalo.

Logo após o seu regresso à Pátria, em meados de 1879, dá início à publicação de “O António Maria”, cujo título alude a António Maria Fontes Pereira de Melo, figura política dominante que presidira ao Ministério. Até janeiro de 1885, nas páginas desta revista onde também colaborou Guilherme de Azevedo, conjuga-se um combate de ideias que visa os partidos no exercício do poder e as debilitadas instituições da monarquia. Em simultâneo, vão saindo as folhas do “Álbum das Glórias”, 42 caricaturas de personalidades e instituições portuguesas, comentadas por literatos contemporâneos. Na sua globalidade, estas obras, a que ainda acrescem edições do “Almanaque do António Maria”, constituem o cerne da obra gráfica de Rafael Bordalo Pinheiro, o apogeu do criador e um momento ímpar na cultura portuguesa.

É por esta época que Rafael Bordalo Pinheiro integra o Grupo do Leão (1881-89), importante formação livre apoiada por Alberto de Oliveira (1861-1922), que reúne artistas, escritores, intelectuais em torno de Silva Porto (1850-1893) e inclui os pintores José Malhoa (1855-1933), António Ramalho (1859-1916), João Vaz (1859-1931), Moura Girão (1840-1916), Henrique Pinto (1853-1912), Ribeiro Cristino (1858-1948), Rodrigues Vieira (1856-1898), Cipriano Martins e ainda Columbano, que pinta o célebre retrato de grupo (1885) onde figuram estes protagonistas à mesa do Leão d’Ouro, acompanhados por Manuel Fidalgo e outro dos criados daquela cervejaria lisboeta. Também Rafael caricatura os mesmos na “Alegoria ao Grupo do Leão”, óleo a simular azulejo em que cada artista surge com os atributos do seu género de pintura.

De 1885 a 1891, publica os “Pontos nos ii”, revista com idêntica intenção e semelhante na postura de defesa das causas portuguesas e de denúncia clara das manobras políticas, em que assumem particular relevo a “Questão com a Inglaterra”, o “Monopólio dos Tabacos”, o “Ultimatum” e a “Revolta do Porto de 31 de janeiro”. É na sequência das empenhadas páginas dedicadas a este último acontecimento que o jornal é encerrado pelo Governo Civil de Lisboa, logo após o número de 5 de fevereiro de 1891.

Será a oportunidade para o rápido reaparecimento de “O António Maria”, numa 2ª série que perdurará até 1899. Em 1900, dá lugar a “A Paródia”, revista que atesta o desencanto de Rafael Bordalo face à vida política do País, substituindo-a cada vez mais pelo comentário do seu desenho aos eventos e às personalidades do meio artístico lisboeta, e dando espaço à colaboração do filho Manuel Gustavo (1867-1920). No entanto – ou por isso mesmo –, é nas capas dos primeiros números desta revista que caricatura os variados aspetos da realidade socioeconómica, de forma tão certeira que a sua aplicação continua a ser lembrada com acuidade, seja “A Política: a Grande Porca”, “A Finança: o Grande Cão”, “A Economia: a Galinha Choca” ou “A Retórica Parlamentar: o Grande Papagaio”.

Refere a estudiosa do artista, Irisalva Moita: “concorria em Rafael Bordalo Pinheiro um tão importante conjunto de predicados necessários ao caricaturista – espírito crítico, poder de síntese, penetração psicológica, amor ao próximo, desenho incisivo e rápido, intuição, poder de fixação do essencial – que era neste campo que o Artista havia, forçosamente, de se encontrar.”. Lembre-se que é ele ainda o pioneiro, nas suas revistas, da banda desenhada portuguesa.

A criação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha sob a direção artística de Bordalo e a sua instalação na vila, em 1884, contribui decisivamente para a revitalização da ancestral cerâmica local, quer pela revolução das formas, quer pela gramática decorativa de raiz francamente naturalista e tantas vezes duma exuberância a desafiar a realidade. É a oportunidade de passar à argila a caricatura e o humor, entre muitos outros motivos criando os bonecos de movimento, como o Zé Povinho, a Velha Maria, a Ama das Caldas, o Cura, o Sacristão, o Polícia. Por outro lado, executa cerca de 60 figuras da Paixão de Cristo (1887-99) para as Capelas do Buçaco, esculturas em terracota de grande animismo, individualidade e movimento, uma encomenda do Governo português para 86 figuras, que não foi concluída, e se pode apreciar no Museu de José Malhoa, nas Caldas da Rainha. Mas não só a faiança das Caldas deve a Bordalo Pinheiro o desbravar de caminhos. Também a arte do barro portuguesa em geral colhe benéfico fruto da ação e da inspiração desse notável vulto da nossa cultura.

Dirige ainda a construção do Pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Paris de 1889, empreendimento grandioso que reúne e valoriza os produtos nacionais, alcançando aí a cerâmica das Caldas notável sucesso e sendo o artista galardoado com medalha de ouro. Em 1892, em colaboração com Ramalho Ortigão (1836-1915), realiza outro importante projeto internacional: a decoração da secção portuguesa da Exposição Colombiana de Madrid, segundo programa de motivos náuticos de grande visibilidade.

Aos 58 anos, quando a sua produção artística ainda teria muito a revelar, Rafael Bordalo Pinheiro morre em Lisboa, no dia 23 de janeiro de 1905.

Bordalo, espírito criador, grande talento de artista, renovador da cerâmica das Caldas, o caricaturista “pai” do Zé Povinho, deixa uma obra que se identifica com o próprio País e o seu povo, não só pelo génio do Artista, mas também pela intervenção do Homem.

Bibliografia sumária

  • Couto, Matilde Tomaz do – A Arte do Barro nas Caldas, in “Museu de José Malhoa: Roteiro”, Caldas da Rainha, Museu de José Malhoa, 2005.
  • Couto, Matilde Tomaz do – Os Passos da Paixão de Cristo segundo Rafael Bordalo Pinheiro, in “Monumentos”, n.º 20, Lisboa, DGEMN, Março 2004.
  • França, José-Augusto – Rafael Bordalo Pinheiro: o Português tal e qual, Lisboa, Livraria Bertrand, 1981.
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 4, Lisboa – Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, Limitada, s. d..
  • Guia do Museu Rafael Bordalo Pinheiro, Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, s. d..
  • Moita, Irisalva – A Caricatura na Obra Cerâmica de Rafael Bordalo Pinheiro, Caldas da Rainha, Museu de José Malhoa, 1987.
  • Ortigão, Ramalho – A Fábrica das Caldas da Rainha, Porto, 1891.
  • Pinto, Manoel de Sousa – Raphael Bordallo Pinheiro: O Caricaturista, Lisboa, Livraria Ferreira, 1915.
  • Raphael Bordallo Pinheiro aos quadradinhos, Lisboa, Bedeteca de Lisboa, 1996.
Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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