Carlos Ramos

Por Bárbara Coutinho

Arquiteto, urbanista e pedagogo, Carlos João Chambers Ramos (1897-1969) nasce no Porto em 15 de janeiro de 1897. A infância passa-a em Lisboa depois de seu pai, Manuel Maria de Oliveira Ramos (1862-1931), ter sido convidado para lecionar a cátedra de História na Faculdade de Letras. Durante a adolescência, Carlos Ramos convive, graças à profissão e conhecimentos de seu pai, com a elite cultural e intelectual do país, crescendo num ambiente pautado pela música e pela arte.

Depois de conhecer e privar com o arquiteto Ventura Terra, decide seguir arquitetura e, em 1915, faz o exame de admissão ao curso especial de arquitetura civil juntamente com os seus amigos, Cottinelli Telmo, Paulino Montez e Leitão de Barros. Durante o curso, tem ainda como colegas Cristino da Silva, Pardal Monteiro e Carlos Rebelo de Andrade, formando o que considera ser o maior lote de arquitetos que a Escola de Lisboa jamais formara. A amizade com Almada Negreiros, Eduardo Viana e Mário Eloy nasce durante a década de 1910, década em que projeta o Bristol Club, em que assiste aos bailados russos, em que participa na efémera revista Sphinx e no projeto da Lusitânia Films e em que inicia a sua importante coleção de arte.

Arquiteto do primeiro modernismo português, Carlos Ramos retrata-se a si próprio como membro de uma “geração de transigentes” que teve de contemporizar ou mesmo abdicar de alguns dos seus ideais de forma a garantir a sua sobrevivência profissional. Nesta afirmação, Ramos mostra-se consciente dos custos e compromissos que implicou essa atitude. Depois da sua obra evoluir da influência art déco à afirmação da linguagem modernista, privilegiando a depuração e o tratamento rigoroso dos volumes, os projetos assinados entre 1930 e 1950 revelam-se qualitativamente irregulares. Testemunham o caráter eminentemente prático e epidérmico do modernismo nacional e a adoção de valores modernos utilizados como mais um vocabulário de uma linguagem eclética, cada vez mais historicista e revivalista. Deste modo, vemo-lo recorrer a um monumentalismo neoclássico, marcado por uma clara geometrização e uma frugalidade ornamental exterior quando se trata de representar o poder; a propor habitações, postos fronteiriços ou tribunais num regionalismo vernacular e com recurso a materiais de construção tradicionais; ou a projetar equipamentos públicos funcionalistas com técnicas e materiais modernos, como o betão armado e o vidro. Os inúmeros postos fronteiriços juntamente com os vários tribunais, equipamentos hospitalares e planos urbanísticos fazem dele uma figura importante na edificação da imagem arquitetónica do Estado Novo levada a cabo por Duarte Pacheco e pelo Ministério das Obras Públicas.

Inerente a toda a sua obra arquitetónica está a procura em ultrapassar a aparente contradição entre os conceitos de modernismo e nacionalismo. Ao defender que nacionalismo não passa do conhecimento exato do espaço em que vivemos e modernismo a consciência exata do nosso tempo, Carlos Ramos procura encontrar, sem sucesso, a expressão arquitetónica que resultasse da articulação dos princípios funcionalistas com a especificidade nacional. Contudo, ao defender este princípio, antecipa o Regionalismo crítico dos anos cinquenta.

Filho, sobrinho e neto de professores, Carlos Ramos toma a função educativa como o principal legado familiar. Para Ramos formar não é uma ação confinada à sala de aula nem se limita ao ensino de conhecimentos teóricos ou práticos. Formar é sobretudo transmitir uma ética profissional e uma consciência de classe que Ramos veicula através do seu exemplo, pois acredita que só com uma vida associativa forte e uma intervenção coesa dos arquitetos na sociedade civil é que se evitará uma outra geração de transigentes.

Carlos Ramos no atelier - finais dos anos 40 Carlos Ramos no atelier - finais dos anos 40

Deste modo, e por defender que depende da mudança do sistema educativo toda e qualquer evolução da arquitetura nacional, só possível quando “a educação estética de meia dúzia de gerações sucessivas fôr feita com cuidado, bom senso e um grande sentido de equilíbrio”, Carlos Ramos elege a formação como objetivo maior da sua vida. Em 1933 concorre ao lugar de professor da 4ª cadeira de arquitetura na Escola de Belas Artes de Lisboa, juntamente com Paulino Montez, Cassiano Branco e Cristino da Silva. Fá-lo em nome dessa consciência e da determinação profunda em mudar o considerado obsoleto sistema de ensino. Perdida esta oportunidade para Cristino da Silva, Ramos transforma rapidamente o seu ateliê em Lisboa numa escola prática para as novas gerações de arquitetos que, durante os anos 1930 e 1940, encontram no Largo de Santos um contraponto ao ensino academizante protagonizado pela Escola. No ateliê Ramos exerce um papel de extrema relevância na tomada de consciência das novas gerações que com ele convivem, trabalham e aprendem. Por ali passam Keil do Amaral, Dário Vieira, Adelino Nunes, Raul Tojal ou Nuno Teotónio Pereira, entre muitos outros. É neste período que se torna uma referência incontornável para as novas gerações “nem sempre atravez das suas obras em que foi, por vezes, forçado a transigências, mas sempre atravez de encorajamentos aos outros e da defeza inabalável do seu direito a quererem ser coerentes com o seu tempo”.

Concorrendo para este entendimento da formação, Carlos Ramos elege a palavra como meio privilegiado de comunicação e partilha. Homem de grande cultura geral, detentor de um rápido e ágil raciocínio e de uma escrita clara e apelativa, distingue-se em palestras, conferências e debates em que participa pelo seu discurso eloquente e retórico de fino e acutilante humor. Sem ser autor de um profundo corpo teórico reflete criticamente sobre a evolução da arquitetura e a função e formação do arquiteto, acaba por ganhar notoriedade entre a sua geração que pouco ou nada deixou escrito. Para Carlos Ramos toda e qualquer reflexão é indissociável da comunicação enquanto veículo de transmissão de conhecimentos e experiências. Daí recorrer sistematicamente ao seu percurso como exemplo prático, a interjeições pessoais e a imagens alegóricas de modo a facilitar a compreensão do seu raciocínio a toda a plateia. A reforma do sistema de ensino é a outra temática constante das suas comunicações. E mesmo que tal não aconteça, emana de todos seus discursos uma forte consciência pedagógica.

Mas é na Escola de Belas Artes do Porto que Carlos Ramos acabará por concretizar o seu pensamento. A praticabilidade efetiva deste pensamento inicia-se em 1940 quando substitui Marques da Silva e assume as funções de professor interino da 4ª cadeira de arquitetura. Até 1952 – à exceção de 1946 a 1948 em que leciona na Escola de Lisboa – Ramos introduz uma série de inovações no ensino da arquitetura. Instaura a prática de as provas de arquitetura serem antecedidas por duas lições e leva os alunos a confrontarem-se com programas contemporâneos fazendo-os trabalhar sobre a arquitetura hospitalar, os aquartelamentos, a habitação coletiva ou os planos urbanísticos, enquanto fomenta o contacto direto com a prática profissional. É assim que promove a colaboração efetiva de discentes e docentes da Escola do Porto em projetos da sua responsabilidade. Na porta da sala de aula um excerto da definição de arquiteto de Vitrúvio relembra a todos que a formação é um ato contínuo e ininterrupto. No seu interior, Ramos promove a liberdade de expressão dos alunos, ajudando-os a desenvolver a sua capacidade de argumentação através da defesa das suas opções técnicas e formais. Máxima liberdade com máxima responsabilidade é o lema constantemente repetido.

Em 1952, Carlos Ramos abandona a sala de aula para assumir a direção da Escola. Durante 15 anos consegue criar e manter, longe do estreito espartilho ideológico do Estado Novo, um microcosmos profícuo para a afirmação de uma consciência social e política inseparável das novas tendências arquitetónicas dos anos 1950/60. Este é um objetivo conseguido à custa de cedências, compromissos e pontuais ambiguidades numa delicada diplomacia. Durante este período, Ramos assume-se como catalisador ao promover um conjunto de atividades extracurriculares que procuram fazer da Escola um espaço cultural: as Magnas – onde se sente o pulsar da Escola com a exposição dos trabalhos de alunos e professores de arquitetura, pintura e escultura numa união das três artes; as exposições autorais ou temáticas; os cursos de verão e viagens; os concertos, debates, colóquios ou ciclos de cinema.

Carlos Ramos atelier - 1968 Carlos Ramos atelier - 1968

A Escola nunca foi entendida como um fim em si próprio, mas antes um meio de prosseguir a sua ideia de pedagogia. A sua importância não está apenas no que fez, disse ou lutou; encontra-se sobretudo na criação de um espaço livre, incentivador da ação de outros. Ramos teve a particular capacidade de saber olhar e congregar à sua volta homens de diferentes gerações, chamando-os para a Escola. Se o seu axial objetivo é construir uma escola de pessoas, a sua maior herança encontra-se no sentido de escola que transmite aos seus discípulos. Ramos forma no Porto alguns dos nossos mais importantes arquitetos desde a década de 1960 até à atualidade, entre os quais se destacam Mário Bonito, João Andresen, Arnaldo Araújo, Octávio Lixa Filgueiras, Alexandre Alves Costa, Sérgio Fernandez, Fernando Távora, Manuel Mendes, Alcino Soutinho e Álvaro Siza Vieira. Os diferentes percursos tomados por estes arquitetos e a sua importância na afirmação da arquitetura nacional, no desenvolvimento do ensino ou na reflexão teórica e histórica testemunham, mais uma vez, a herança do mestre cuja qualidade mais valorizada é o seu profundo sentido de equipa. É por estas razões que Alexandre Alves Costa apresenta a sua geração com objetivos, atitudes e convicções completamente diferentes dos de Carlos Ramos, mas acaba por se confessar herdeiro deste ao afirmar – “sem ele, não seríamos o que somos” .


Notas:

[1] Carlos Ramos, Alguns problemas de Urbanismo, conferência organizada pelo ODAM, Ateneu Comercial do Porto, 1951 (manuscrito - Departamento de Documentação e Pesquisa – Centro de Arte Moderna).

[2] O edifício Barros & Santos (1921/22) – depois Agência Havas, o Bairro Económico de Olhão (1925), o Pavilhão do Rádio (1927-1933), o projeto do Liceu Feminino Filipa de Lencastre (1929), o primeiro projeto para a Habitação Moreira de Almeida (1928) ou o Instituto Navarro de Paiva (1931) testemunham esta evolução.

[3] Carlos Ramos, «Algumas palavras e o seu verdadeiro significado», Sudoeste, nº 3, 1935.

[4] Keil do Amaral, Homenagem a Carlos Ramos. Discurso proferido no Tivoli, 1967 (manuscrito – espólio Carlos Ramos).

[5] “Para conseguir ser um bom arquitecto, é necessário ter talento e interesse pelo estudo, já que nem o talento sem o estudo, nem o estudo sem o talento podem formar um bom arquitecto. O futuro arquitecto deve estudar gramática, desenvolver a técnica de desenho, estudar geometria, instruir-se em aritmética e ser versado em história. Saber ouvir os filósofos com aproveitamento, ter conhecimentos de música, não ignorar a medicina, conseguir unir os conhecimentos do direito aos da astrologia e astronomia”, Tradução livre da versão espanhola de Marco Vitruvio, Los Diez Libros de Arquitectura. Barcelona: Editorial Ibéria, 1997, p.6.

[6] Fernando Távora, Evocando Carlos Ramos. rA. Revista da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Porto, FAUP, ano I, nº 0, Out -1987, p.75

[7] Alexandre Alves da Costa, Introdução ao Estudo da História da Arquitectura Portuguesa. Porto: FAUP, 1995, p. 95.

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Camões, I.P.
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