José Augusto Seabra

Por Arnaldo de Pinho

José Augusto Seabra, poeta, ensaísta e crítico, exerceu também notável ação política, diplomática e cívica

Nascido a 1937 em Vilarouco (Alto-Douro), viveu a infância em Peroselo (Penafiel), tendo a seguir frequentado as Universidades de Coimbra e Lisboa, onde se licenciou em Direito em 1961.

Preso pela primeira vez aos 17 anos, foi torturado, julgado e preso no Forte de Peniche. Parte mais tarde para Paris, onde se exila a partir de 1961, só regressando a Portugal em 1974, com o movimento do 25 de Abril. É em Paris que morre, em 27 de maio de 2004.

A sua primeira obra, A Vida Toda, data de 1961. Lá constam poemas escritos desde 1955, isto é, desde os seus 18 anos. Em Paris, assiste à polémica entre Camus, Sartre e Merlau-Ponty sobre a natureza do Comunismo e perde a tentação que nunca fora forte de seguir a estética neorrealista. Desenvolve a sua curiosidade literária e estética, por autores como Mallarmè e Rimbaud, e o seu interesse pelo seu Simbolismo e Modernismo portugueses, de Pessanha a Pessoa, acabando por escrever uma tese de doutoramento com Roland Barthes sobre Fernando Pessoa, intitulada Analyse structurale des Hétéronymes de Fernando Pessoa: du Poémodrame au Poétodrame.

Docente universitário em Paris, Nanterre e Vincennes, passou também pela Escola Normal Superior. Entra a fundo no ensaísmo e na crítica, colaborando assiduamente por essa altura no suplemento literário de O Comércio do Porto e do Diário de Lisboa. Em 1972 publica Tempo Táctil, sob a influência dos comentários de Heidegger a Hölderlin e Rilke.

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Regressado a Portugal em 1974, é eleito deputado à Assembleia Constituinte, assumindo também os seus cursos na Faculdade de Letras do Porto. Aí cria o Centro de Estudos Pessoanos e colabora na revista Persona. Desta época de grande fecundidade intelectual, data também o projeto do movimento “Nova Renascença”, a que se entrega, recriando noutro contexto o movimento portuense “Renascença Portuguesa”. Data de 1980, o aparecimento do primeiro número da revista Nova Renascença.

Recolha de poemas desta época, sob o signo de Mallarmé e na “experiência do Amor reencontrado de uma companheira que comigo os (transes) partilhou”, é a obra Desmemória, publicada em 1977. Confessa José Augusto Seabra a influência de S. João da Cruz, “retomando o rasto da minha fé abalada da infância”.

Data também desta época, O Anjo, um conjunto de 25 poemas, mistico-esotérico. O Anjo reenvia certamente a Rilke e Pessoa, enquanto busca dum signo entre imanência e transcendência.

Em 1985, aparece a Gramática grega, escrito em Creta, na altura em que era Ministro da Educação no governo do bloco central, presidido por Mário Soares. O fascínio da cultura grega, aparece em todos os poemas. Este deslumbramento aparece, sob outros sóis, em Poemas do nome de Deus, publicados em 1980, em português e chinês, onde, sob o signo de Macau, o poeta evoca o Oriente e «o Oriente, a oriente do Oriente».

Colocado como diplomata na UNESCO, publica nesse mesmo ano Fragmentos do Delírio, um texto subtil e atento à descontinuidade, com influência do seu encontro com Vieira da Silva. Eleito para o Conselho Executivo da UNESCO, viu-se forçado pelo então Governo português a abandonar este cargo, tendo sido colocado na Índia como Embaixador, lugar que recusa, voltando ao seu lugar de Professor em Paris.

Publica com sua esposa Norma Tasca, em 1993, a obra Enlace, no dia do seu casamento católico, obra escrita a duas mãos, em enlace, dedicada à mãe Anísia, para que ela o consagrasse “para além da morte”. Amar a Sul, aparecido em Porto Alegre, em 1997, representa o alargamento a sul, após a experiência grega e a experiência do Oriente, um novo signo, cheio de figurações luso-brasileiras. Como se a experiência da errância encontrasse um novo ancoradouro.

Significativa desta busca e achamento, é a sua obra as Sombras do Nada, aparecida em 1996, diálogos entre o poeta e a sombra, entre o haurido e o indefinido, ainda sob o signo de Pessoa e Pascoaes.

Sempre atento à encarnação dialogal da cultura portuguesa e sensível aos lugares de passagem, publica Seabra, como recordação da Roménia Conspiração da Neve e da Argentina, com a autoria de J. Luís Borges, Destino e obra de Camões.

Reconsiderando o conjunto da obra do Professor Embaixador na sua totalidade e a vida que por ela perpassa, vem-nos à mente o verso de Hölderlin que reza assim: “Nós somos um signo vazio de sentido / Insensível e longe da Pátria / Nós quase perdemos a palavra”.

Efetivamente as palavras errância, exílio, itinerância, oriente, aparecem constantemente na sua obra que se alarga, metonimicamente, como escreveu em Amar a Sul, a outros espaços, como a Grécia, Macau, Porto Alegre, Roménia, Argentina, como se cada pessoa e cada lugar levassem em si a possibilidade de abrir os signos, de os prolongar ou de os transmutar. “Tudo se passa, escreveu magistralmente na introdução a sua autobiografia intitulada De Exílio em Exílio (Porto, 2004), no sentido agónico do termo, como se uma carência absoluta atravessasse a trama do acontecer e do narrar”. Ir a Oriente ou a Ocidente, aqui ou ali, entre tópico e utópico, atravessa a vida e põe irremediavelmente a questão colocada por Pessoa: “Para que fui à Índia que há / Se não há Índia senão na minha alma?”

Na sua obra, de facto, perpassa, como confessou no Prefácio à Antologia Pessoal (Brasília, 2001) “o constante contraponto de duas vocações, cuja tendencial coincidência não foi por vezes sem tensões extremas: a da palavra escrita que no poema cristaliza, irradia ou se refracta e a da palavra agida a todos os níveis, uma e outra movendo-se em tempos entrelaçados. Mas em primeira e última instância só a palavra salva”.

Bibliografia de José Augusto Seabra

  • A Vida Toda (Porto 1961), edição do autor.
  • Os Sinais e a Origem (Lisboa 1972), Portugália Editora.
  • Tempo Táctil (Lisboa 1972), Portugália Editora.
  • Desmemória (Porto 1977), Brasília Editora.
  • O Anjo (Porto 1980), Ed. Nova Renascença.
  • Gramática Grega (Porto 1985), Ed. Nova Renascença.
  • Do Nome de Deus (Macau 1990), Instituto Internacional de Macau.
  • Fragmentos do Delírio (Ponta Delgada 1990), Ed. Signum.
  • Epígrafes (Málaga 1991), Ed. Angel Caffarena.
  • Enlace, em col. com Norma Tasca (Porto 1993), Fundação Eng. António de Almeida.
  • Sombras de Nada (Lisboa 1996), Quetzal Editores.
  • Amar a Sul (Porto Alegre 1997), Ed. Movimento.
  • O Caminho Íntimo para a Índia (Macau 1999), Lello e Instituto Cultural de Macau.
  • Conspiração da Neve (Coimbra, 1999), Ed. Minerva.
  • Vários livros de Poemas estão traduzidos. Incluído em diferentes Antologias estrangeiras.

Ensaios

  • Fernando Pessoa ou o poetodrama (1.ª ed. S. Paulo 1974; 3.ª ed.. revista Lisboa 1988)
  • Poiética de Barthes (Porto 1980), Brasília Editora
  • O Heterodoxo pessoano (1.ª ed. Lisboa 1985;: 2.ª ed. S. Paulo), Ed. Perspectiva.
  • Poligrafais Poéticas (Porto 1984), Lello Editores.

Edição Crítica

  • Mensagem e Poemas Esotéricos de Fernando Pessoa, col. “Archivos”, Madrid 1993.
Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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