José Cardoso Pires

Por Eunice Cabral

José Augusto Neves Cardoso Pires nasce a 2 de outubro de 1925, na aldeia de Peso, no distrito de Castelo Branco, mas vem para Lisboa com poucos meses de idade. Fixa residência nesta cidade, onde morre a 26 de outubro de 1998. É reconhecido como um dos mais importantes escritores portugueses da segunda metade de século XX.

O seu trajeto pessoal e a sua carreira de escritor são marcados pela inquietação e pela deambulação. Não se identifica com nenhum grupo, nem se fixa em nenhum género literário, apesar de ser considerado sobretudo como um romancista. A característica mais evidente da sua não muito vasta obra (são ao todo dezoito os seus livros publicados em quase cinquenta anos de vida literária) é o facto de cada livro seu inaugurar e completar um ciclo de criação literária. Nenhuma das suas obras se tornou uma fórmula que viesse a repetir, apesar de ser possível reconhecer linhas de evolução da sua escrita literária. O seu primeiro livro foi publicado em 1949 e o último em 1997.

A relação mais consistente e duradoura, no campo literário, deu-se com o movimento neorrealista português até ao 25 de Abril de 1974, não tanto por razões de defesa ou de prática de um tipo canónico de estética empenhada, mas, sobretudo, pela adesão a uma política de resistência ao regime autoritário português. A inserção da sua obra no Neorrealismo literário português é, por estas razões, complexa e eivada de contradições. O traço distintivo, que mantém até às últimas obras, é o respeitante ao compromisso da literatura com a realidade sua contemporânea. No entanto, este escritor aprendeu outras lições – entre elas, a lição dos surrealistas, cujo grupo frequentou temporariamente nos inícios da década de 40 – que levaram a que entenda que essa relação (literatura /realidade contemporânea) é fatalmente sujeita a uma interpretação individualizada.

Os seus primeiros contos demonstram quer preocupações de cariz social (vetor afeto ao cânone neorrealista), quer outras influências, tais como a escrita esteticamente documental de Hemingway, a narrativa cinematográfica, o que resulta em narrativas de discurso contido, com diálogos concisos, cuja focalização produz um estranhamento, um deslocamento, sempre reconhecíveis na sua obra até finais de 60.

Cada livro deste autor recomeça tudo de novo. Apesar da filiação e dos caminhos para os quais cada obra aponta serem indicativos de um rumo de modo muito relativo na medida em que muda de direção no livro seguinte, é, mesmo assim, possível perceber que as obras de finais de 50 e as de 60 concentram o auge da sua criatividade pelas afinidades que exibem entre si e em diálogo com a literatura europeia. São elas: O Anjo Ancorado (1958), Cartilha do Marialva (1960), Jogos de Azar (1963), O Hóspede de Job (1963) e O Delfim (!968). Se três são romances, já Cartilha do Marialva é um ensaio sobre a via errada, seguida por Portugal, que optou pelo irracionalismo e pelo imobilismo, atualizados e enaltecidos pelo regime salazarista. A figura do marialva, privilegiado em nome da sua família e dos seus haveres patrimoniais, encarna a espécie de provincianismo português que o autor caracteriza em traços negros e caricaturais de modo a fustigá-lo para melhor o erradicar do país. Jogos de Azar é uma recolha de entre os primeiros contos (publicados nos dois primeiros livros), escolhidos pelo autor sob a égide da figura do “desocupado”, sinónimo, na gramática do autor, do cidadão português, destituído de meios para viver.

Neste período de intensa e feliz criatividade, Cardoso Pires mede a sua escrita pela de vários autores europeus com os quais vai dialogando regularmente, como é o caso de Elio Vittorini. A nova literatura parece, para os dois autores, ser a que fixa a essência da realidade industrial. O Anjo Ancorado dá conta dessa realidade modernizada, inscrita na sociedade portuguesa, mesmo no tempo de um regime opressor, mas é vivida apenas por um burguesia muito restrita numericamente, letrada, com intenções políticas democráticas mas inerte, amorfa e envergonhadamente privilegiada em contraste com a maioria da população, que sobrevive numa pobreza no limite da sobrevivência mais primária. O Hóspede de Job, romance que representa também esta divisão nítida, já surgida no romance anterior, narra a história de uma deambulação de um Job que alberga involuntariamente em sua casa o hóspede que o irá mutilar, reduzindo-o a um pedinte de feira. Embora recebidos como neorrealistas no período em que foram publicados, são dois romances acentuadamente pessimistas, destituídos de dimensão futurante, característica principal das narrativas do movimento referido.

O Delfim é o romance, geralmente considerado a sua obra-prima. Apesar de não ter semelhanças com os livros anteriores, o autor foi aprimorando a narrativa focalizada a partir de um olhar “forasteiro”, aparentemente descomprometido com uma realidade percebida como anacrónica. A Gafeira, aldeia inexistente, inventada a partir de tantas outras portuguesas, é o local de eleição e objeto de um determinado modo de ver e de interpretar o Portugal marcelista, a seis anos de uma mudança drástica. O centro do relato diz respeito a um crime, que consubstancia o estilhaçar de um mundo que se apresenta como perfeito e imóvel, mas que começa a ser infiltrado do exterior por mudanças modernas que o irão alterar para sempre. Esta tensão é narrada por um discurso perspetivístico, distanciado, sendo, então, impossível o registo narrativo de tipo realista. Mesmo sendo um romance profundamente experimentalista, em articulação com as vanguardas europeias desta década, mantém, na sua urdidura, a noção de “documento humano” pela necessidade de traçar, com um rigor irónico, paródico, por vezes “hiper-realista”, as coordenadas portuguesas num período de profundas mudanças. Tendo sido recebido até 1974 como romance neorrealista, tem despertado um interesse crescente como narrativa pós-modernista. Pode efetivamente ser lido como o primeiro romance português no qual confluem as principais linguagens estéticas norteadoras do futuro pós-modernismo português devido à mistura de géneros, à polifonia, à fragmentação narrativa e à metaficção.

Publica, ainda, mais dois romances singulares, que não dão continuidade ao de 1968. São Balada da Praia dos Câes (1982), tornado best seller à época e Alexandra Alpha (1987). O primeiro reconstitui, de forma inovadora e plurifacetada, o crime da Praia do Guincho, ocorrido na realidade em 1960 mas perspetivado, neste romance, como fazendo parte de um passado social e político. O segundo é o único, nesta obra, que representa o Portugal pós-1974, vendo nele toda a violência do conflito político e económico dos primeiros tempos da revolução, sem possuir, no entanto, o grau de simbolização inscrito em O Delfim. É um romance desencantado, inesperado e o último desta obra romanesca.

O autor vai continuando fiel à sua primeira vocação, a de contista, cuja publicação vai acompanhando a dos romances. Para além de Jogos de Azar, tem duas coletâneas de contos, O Burro-em-Pé (1979) e A República dos Corvos (1988). Tem duas peças de teatro, O Render dos Heróis (1960) e Corpo-Delito na Sala de Espelhos (1980). O fenómeno da crónica da autoria de um romancista voltou a tornar-se popular na década de 90, o que fez com que reunisse as crónicas surgidas no jornal “Público” em A cavalo no Diabo (1994).

A sua última obra mais importante é, de novo, uma exceção. Trata-se de De profundis, Valsa Lenta (1997), relato do acidente vascular cerebral que o atingiu em 1995 e que é apresentado pelo autor como uma “viagem à desmemória”. É a única narrativa da sua obra que pode ser considerada autobiográfica. A vertente autobiográfica é, no entanto, peculiar na medida em que é um relato obviamente posterior ao acidente que dele fixa pormenores aleatórios, desconexos de quem veio das trevas de uma doença muito grave para a luz da memória. O principal interesse desta narrativa reside na figuração de um eu como “o outro de mim”, feito de traços desarticulados aos quais é impossível atribuir uma caracterização completa, aspeto que é igualmente reconhecível na fragmentação de muitas das suas vozes narrativas dos romances.

Bibliografia

Ativa

  • Os Caminheiros e Outros Contos (1949).
  • Histórias de Amor (1952).
  • O Anjo Ancorado (1958).
  • O Render dos Heróis (1960).
  • Cartilha do Marialva (1960).
  • Jogos de Azar (1963).
  • O Hóspede de Job (1963).
  • O Delfim (1968).
  • Dinossauro Excelentíssimo (1972).
  • E agora, José? (1977).
  • O Burro-em-Pé (1979).
  • Corpo-Delito na Sala de Espelhos (1980).
  • Balada da Praia dos Cães (1982).
  • Alexandra Alpha (1987).
  • A República dos Corvos (1988).
  • A cavalo no Diabo (1994).
  • De profundis, Valsa Lenta (1997).
  • Lisboa – Livro de Bordo (1997).

Passiva

  • CABRAL, Eunice, José Cardoso Pires – Representações do Mundo Social na Ficção (1958-82), Edições Cosmos, Lisboa, 1999.
  • COELHO, Eduardo Prado, “Cardoso Pires: o círculo dos círculos”, in A Noite do Mundo, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, 1986.
  • CRUZ, Liberto, José Cardoso Pires, Arcádia, Lisboa, 1972.
  • FOKKEMA, Douwe W., “Empirical questions about symbolic worlds: a reflection on potencial interpretations of José Cardoso Pires, “Ballad of Dogs’ Beach” (1982)”, in Dedalus, nº 2, 1992, pp. 59-66.
  • LEPECKI, Maria Lúcia, Ideologia e Imaginário. Ensaio sobre José Cardoso Pires, Moraes Editores, Lisboa, 1977.
  • LOURENÇO, Eduardo, “”Espelho sem Reflexo”, in Corpo-Delito na Sala de Espelhos, Moraes Editores, Lisboa, 1980.
  • PETROV, Petar, O Realismo na Ficção de José Cardoso Pires e de Rubem Fonseca, Difel, Lisboa, 2000.
  • PORTELA FILHO, Artur, Cardoso Pires por Cardoso Pires, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1991.
  • RODRIGUES, Rogério, “A verdade por detrás do “best seller” (Balada da Praia dos Cães)”, in O Jornal, nº 436, Julho de 1983.
  • TORRES, Alexandre Pinheiro, “Sociologia e significado do mundo romanesco de José Cardoso Pires”, in Romance: o Mundo em Equação, Portugália Editora, Lisboa, 1967.

VENTURA, Mário, Conversas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1986.

Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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