Mário Eloy

Por Helena Vasconcelos

MÁRIO ELOY (1900 – 1951 Mário Eloy de Jesus Pereira), justamente considerado como um dos artistas portugueses mais marcantes do século XX, nasceu a 15 de março de 1900, em Algés, Lisboa. Tanto o pai como o avô eram ourives de profissão e dedicavam-se com paixão ao Teatro amador. Desde muito jovem, Mário demonstrou ser irreverente e inquieto, arvorando uma atitude de contestação precoce. Em 1913, abandonou o Liceu e matriculou-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde apenas permaneceu dois anos, insatisfeito com o ensino tradicional que aí se ministrava.

Entre 1915 e 1919, Mário levou uma vida boémia. Frequentou assiduamente os cafés lisboetas e, nas mesas do “Martinho” ou nos de “A Brasileira”, aproveitava para desenhar os seus companheiros de tertúlia, como o pintor Alberto Cardoso e o dramaturgo Alfredo Cortês. Mais tarde, Diogo de Macedo recordou-o com vinte anos, referindo os seus “hábitos de janotice” e a sua preocupação com a aparência. Nos finais de 1918, ou princípios de 1919, Eloy, rebelando-se contra a imposição familiar de um emprego como bancário (o irmão, Raul, fora indigitado para “cuidar dos oiros” da Casa Eloy de Jesus) fugiu para Madrid onde, no Museu do Prado, encontrou um universo artístico que o desassossegou ao ponto de decidir o seu futuro: ser artista. Foi-lhe difícil acatar o pedido de regresso a Portugal dos pais. Augusta Pina, cenógrafo amigo da família, convenceu-o a voltar, prometendo-lhe trabalho no atelier do Teatro D. Maria II, em Lisboa, onde se exercitou nas técnicas do desenho. O contacto com o meio teatral, que lhe era familiar e que possuía uma enorme vitalidade criativa, convinha às suas ambições artísticas, (chegou a representar com Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro na peça “A Ribeirinha” que estreou no Politeama em 1923) e demonstrou ser importante uma vez que lhe proporcionou uma boa formação. As suas primeiras experiências como pintor foram retratos de amigos, como a atriz Maria Helena Andrade, por quem se apaixonou tão perdidamente que chegou a tentar o suicídio.

Em 1924 expôs pela primeira vez, juntamente com Alberto Cardoso, no Salão de Ilustração Portuguesa do jornal O Século e, em 1925, participou no 1º Salão de outono da Sociedade Nacional das Belas com obras onde eram ainda visíveis a influência de Columbano, de Zuloaga e do seu mentor Eduardo Viana. Nessa altura entrou em contacto com António Ferro, o polémico Ministro da Cultura de Salazar que, em 1925, criou o “Teatro Novo”, no salão de chá do novo cinema Tivoli, tendo encomendado o pano a Mário Eloy. A decoração foi entregue a Pacheko e os cenários a Leitão de Barros. No mesmo ano, Eloy pintou um retrato de Ferro e fez desenhos de amigos e pessoas importantes e influentes, no panorama cultural português. O controverso retrato do bailarino Francis (1925) foi apresentado no I Salão dos Independentes de 1930, onde estavam incluídos os artistas da aventura modernista portuguesa e cujo catálogo tinha capa desenhada por Almada Negreiros.

Em 1925, Eloy abandonou Portugal e partiu para Paris, a cidade trepidante onde se cruzavam todos os artistas e todas as modas e movimentos. Aí, sobreviveu graças aos cheques enviados pelo irmão e à venda de retratos, tendo sido apadrinhado pelos exilados políticos que haviam saído de Portugal com a implantação da República. Acolhia-se geralmente em ateliers, como o do seu amigo Alberto Cardoso, na Cité Falguière. Em 1927 expôs em conjunto com a artista russa Hélène Puciatieka e com o austríaco Erwin Singer na galeria Au Sacre du Printemps. A exposição foi repetida na Chez Fast, a título individual. Os críticos falaram de uma “personalidade brutalmente expressa, audaciosa, até mesmo temerária mas pensada e sentida, simultaneamente moderna e clássica, tradicionalista” (André Warnod, In “Comoedia, 5-5-1927). Em Paris, Eloy teve contacto com o Cubismo de Braque e Picasso, foi comparado a Van Dongen e profundamente influenciado pela corrente Expressionista mas não chegou a ser tocado pelo Surrealismo que, tendo começado por ser um movimento literário, estava a contaminar rapidamente outras manifestações artísticas como as Artes Plásticas e o Cinema.

No final de 1927, Mário deixou Paris, rumo a Berlim. Nesta cidade – onde foi escolhido para a Sociedade de Artistas Plásticos, tendo-se tornado o único estrangeiro inscrito – conheceu Theodora Elfriede Laura Severin, (Dora), com quem casou no dia 31 de janeiro de 1929, poucos dias depois do nascimento do filho, Mário António Horslt Eloy Jesus Pereira. A família instalou-se na Kurfurstendam Strasse, nº 141, enquanto o pintor trabalhava num atelier na Shuter Strasse, 25, mantendo a família com grandes dificuldades económicas que o levavam, por vezes, a “enfileirar nas bichas de figurantes anónimos do cinema”, para “ganhar o pão para a boca” (segundo Diogo de Macedo).

Algumas das obras que produziu nesse tempo foram enviadas para Lisboa e expostas no Sindicato dos Profissionais de Imprensa, em 1928. Raoul Leal-Henoch, no nº16 da Presença, escreveu que “os quadros (de Mário Eloy) parecem ter sido forjados nos infernos, (são) alucinações sinistras de um Além feérico, orquestrado por Satã” e Jaime Brasil fez notar que a utilização de cores sombrias, “... é tão exagerada que o corpo nu de “Mulher Grávida” (1928) é verde de podridão com manchas de gangrena”(em “O Século” , 10-12-1928). Do seu exílio berlinense, Eloy continuou a participar na vida artística portuguesa: escreveu a Jorge Segurado, propondo-lhe o projeto de um “Racional Grupo das Artes Vivas e Estéticas” – que se tornou o embrião para a formação do S.N.P.N., o Secretariado Nacional de Propaganda Nacional de António Ferro – e insurgiu-se contra a recusa de aquisição, por parte de Adriano Sousa Lopes, Diretor do Museu de Arte Contemporânea (atual Museu do Chiado) de um quadro de Barata Feyo. Em 1930 expôs oito obras, quatro pinturas e quatro desenhos no I Salão dos Independentes em cujo catálogo professava o seu desejo de “ter na cabeça pincéis em vez de cabelos”, o que seria a situação ideal para “não desvirtuar a intenção no acto de pintar”, na “procura da síntese na forma”. O pintor transmitia assim a sua ansiedade quanto ao desejo de um imediatismo e de uma pureza do gesto, no ato criador.

Em 1931, Jorge Segurado, seu companheiro de Liceu, instalou-se em Berlim e os dois amigos correram juntos os cafés e os famosos “cabarets” berlinenses onde assistiram, também, aos primeiros sinais da ascensão nazi. Entretanto, Mário colaborou na revista Der Querschnitt que contava, nas suas fileiras, com Picasso, Jean Cocteau e Grosz.

Sempre inquieto e insatisfeito, Eloy viajou entre Berlim e Lisboa várias vezes e, em 1933 regressou a Portugal de vez. Retomou os seus hábitos lisboetas e reatou uma antiga relação com a atriz Beatriz Costa. Dora (que nunca se adaptou a Portugal) e o filho continuaram a viver na Alemanha, cada vez mais abalada por conflitos sociais, políticos e económicos.

Durante os anos trinta, Mário Eloy atingiu o seu apogeu como artista. Experimentou formas e cores, desenvolveu novas técnicas e revelou uma inclinação para temas marcados pela alegoria(“Amor” – 1935, “A Fuga” - 1938-39 e “O Poeta” - 1938) Retratou personalidades do meio artístico português como Abel Manta, António Pedro, Diogo de Macedo e João Gaspar Simões, pintou bailarinas russas e desenhou cenas do quotidiano, bailes populares, o casario de Lisboa e bordéis, lugares de eleição de artistas que aí se sentiam à vontade, longe dos constrangimentos familiares e sociais.

Data de 1934 a sua única obra abstrata conhecida, um óleo sobre tela intitulado “Komposição” (Natureza-Morta).

A partir de 1938 e agravada em 1939, a temática de Eloy evoluiu para um inclinação ferozmente crítica, catastrófica e decadente, a prenunciar tempos sombrios, marcados pela doença de Huntington (ou Coreia), que lhe foi diagnosticada em 1940. O deflagrar da Guerra na Europa foi outro fator de grande instabilidade psicológica. Em 1939 Dora e o filho tiveram de fugir para a Checoslováquia e depois para a Holanda onde se acolheram em casa da mãe de Dora, após a invasão do território checo pelas tropas alemãs.

A esperança pareceu, então, abandonar Eloy. Pintou violinistas e anjos como Chagall (que passou por Lisboa tal como Léger, Lipchitz, Zadkine e Kisling entre 1940 e 1941) e mostrou um lado obscuro de Lisboa, com os seus pobres a pedir e burgueses gordos e ridículos, como as imagens caricaturais de Grosz. Abandonou o tema de casais jovens e romanticamente erotizados para os desenhar velhos, pesados, grotescos e assustadores. Nem mesmo nos bordéis, parecia encontrar a antiga alegria devassa. Os últimos desenhos são dramáticos, cobertos de imagens de monstros, facas, suicidas, mãos e pés dependurados, corpos desmembrados. As suas obras acompanham, de uma forma tormentosa, a decadência e desregramento do mundo e da sua mente. Os seus Cristos crucificados, que lembram a série “ Crucificação, d’après Grünewald”, feitos por Picasso, em 1932, são antevisões dos horrores dos campos de concentração.

Até ao internamento no Hospital do Telhal, em 1942, os sinais de uma degradação gradual são bem visíveis. Eloy pintava pouco e quando o fazia era com a intenção expressa de ganhar dinheiro. Sempre carente de fundos, recorreu ao desenho quando não tinha dinheiro para telas, pincéis e tintas mas continuou sempre a afirmar, orgulhosamente, a sua condição de artista. Falhou à justa os grandes trabalhos em que os grupos mais intervenientes das artes lisboetas se empenharam: as decorações de “A Brasileira” do Chiado e do cabaré de luxo “Bristol Club”, em que foi dada toda a liberdade aos artistas para criarem um lugar de intimidade e voluptuosidade. Zangou-se com o seu irmão Raul (“que sorte teve Van Gogh por ter tido um irmão que o compreendia”, afirmou) e habitava em parte incerta, umas vezes em casa de família, outras em ateliers de amigos, até mesmo num quarto minúsculo do Teatro Nacional. Morreu a 5 de setembro de 1951, depois de uma agonia em que, gradualmente, todas as faculdades o foram abandonando, mal se apercebendo de que, no ano anterior, duas das suas obras, “Autorretrato” e “Jeune Homme” tinham sido escolhidas para a Bienal de Veneza (no ano da sua morte foi escolhido para a Bienal de S. Paulo). Não chegou a conhecer a fama que procurava. O filho, também pintor, morreu num incêndio, em 1975, já doente com Huntington, tendo-se perdido quase toda a sua obra.

Mário Eloy foi um autodidata como Amadeo, Cristiano Cruz, Almada, Viana, Botelho e Bernardo Marques. Controverso, diletante, “antimainstream”, contribuiu para um “segundo Modernismo”, em Portugal. Nele existiu uma tendência para passar ao lado, embora com uma proximidade muitas vezes tangencial, dos grandes acontecimentos, dos movimentos, das iniciativas espetaculares. Não possuiu a exuberância de Almada nem a autoridade natural de Amadeo, foi um homem isolado no espaço geográfico europeu, demasiado “português” mas decididamente rebelde. Eloy pintou e desenhou uma profusão de autorretratos carregados de “pathos” e de intensidade psicológica. É neles que é possível detetar as influências que o regeram e acompanhar a sua evolução, tanto psicológica artística, funcionando como pontos de viragem na sua atribulada existência, tanto pessoal como criativa.

Cronologia:

1900

Nasce em Lisboa.

1913

Matricula-se na Escola de Belas-Artes de Lisboa.

1919

Parte para Espanha – Madrid.

1920

Viaja até Sevilha e, eventualmente, passa por Marrocos (Tânger). Regressa a Portugal pelo Algarve.

1922

Trabalha no “atelier” de Augusto Pina no Teatro D. Maria II, em Lisboa.

1923

Estreia-se como ator no Teatro Politeama na Companhia “Amélia Rey Colaço – Robles Monteiro” na peça “Ribeirinha”.

1924

1º Exposição dos seus trabalhos – com Alberto Cardoso – “Salão de Ilustração Portuguesa”, Lisboa.

1925

Concorre ao “Salão de outono” organizado por Eduardo Viana, Lisboa.

Pinta o Pano de Boca de Cena do Teatro Tivoli, Lisboa – com António Ferro.

1926

Parte para Paris.

1927

Expõe em Paris numa coletiva da Galeria “Sacre du Printemps”.

Expõe individualmente em Paris, na Galeria “Chez Fast”.

Em dezembro deste ano, já se encontra em Berlim, onde expõe, individualmente, na Galeria “A.E. Utsch”.

1928

Vem brevemente a Lisboa, onde expõe individualmente na “Casa da Imprensa”

1929

Nasce Mário António Horslt Eloy Jesus Pereira, 12 de janeiro.

Casa-se em Berlim com Dora Severin, 31 de janeiro.

1930

Expõe no “Salão dos Independentes”, Lisboa.

1931

Os amigos Jorge Segurado e Frederico de Carvalho juntam-se-lhe, em Berlim. 

Expõe na coletiva “Homenagem a Cézanne”, organizada pela “Galerie.

Flechtheim”, ao lado de Picasso, em Berlim.

Expõe na “Allgenine Unabhangige Austellüng”, em Berlim.

1932

Regressa a Lisboa. Expõe no “1º Salão de inverno”.

1934

Expõe na “galeria UP”, em Lisboa.

Cria, com Jorge Segurado, o carro alegórico do Tejo para o cortejo das Festas da Cidade.

António Ferro encomenda-lhe a pintura “Lisboa”.

1935

Concorre à “1ª Exposição de Arte Moderna”, Lisboa.

1936

Concorre à Exposição “Casa Quintão”, Lisboa.

1937

Expõe na “Galeria de Arte”, Lisboa.

1938

Concorre à “3ª Exposição de Arte Moderna”, Lisboa.

1939

Concorre à “4ª Exposição de Arte Moderna”, Lisboa.

1945

Internado na Casa de Saúde do Telhal – 15 de junho.

1950

Bienal Internacional de Veneza – representação portuguesa.

1951

Morre na Casa de Saúde do Telhal – 5 de setembro.

1953

II Bienal do Museu de Arte de S. Paulo, Brasil – representação portuguesa

1958

Exposição Retrospetiva da Obra do Pintor Mário Eloy”, Lisboa e Porto

1978

Exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, Londres.

1996

Exposição Retrospetiva no Museu do Chiado, Lisboa.

Bibliografia / Catálogos:

  • Jorge Segurado, Mário Eloy: pinturas e desenhos, Lisboa, IN-CM, 1982
  • Helena Vasconcelos, Mário Eloy, Lisboa, Caminho, 2005
  • Mário Eloy: exposição retrospectiva, Lisboa, Instituto Português de Museus, 1996
Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
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