Programa da cultura portuguesa

Por Pedro Calafate

Com o presente programa pretende-se dar a conhecer um conjunto de tópicos significativos da Cultura Portuguesa, não diretamente relacionados com a sua dimensão literária e poética. O seu objetivo é o de alargar o âmbito de consideração da nossa cultura para a área habitualmente designada por «pensamento», a qual apresenta, no entanto, uma fronteira fluída com as duas dimensões referidas.

Santo António

18206 01

O conhecimento e a divulgação do pensamento português afigura-se-nos como um aspeto relevante de afirmação da Cultura Portuguesa no mundo, explorando temas tão diversos como:

  • a afirmação do humanismo universalista em Orósio, de que emergem os dois mais significativos pilares da nossa cultura: o humanismo clássico e o cristianismo;
  • a assunção da dignidade racional do homem em Martinho de Dume e os primórdios da evangelização da Galécia e do norte da Lusitânia;
  • o primado das questões ético-políticas com a Geração de Avis, bem como a dimensão introspetiva da obra de D. Duarte, nomeadamente no que se refere à questão da «saudade»;
  • a importância do franciscanismo com a figura intelectual de Santo António de Lisboa, pela valorização da inserção do homem na natureza;
  • a construção da natureza e de um novo espaço humano no período dos Descobrimentos;
  • os quadros do humanismo português, na sua expressão católica e na sua aliança com o projeto imperial do Estado, destacando-se neste domínio a obra de João de Barros;
  • a pujança intelectual da comunidade hebraica, com figuras com a projeção de Leão Hebreu;
  • a estética e as teorias da arte, afirmando os alvores do maneirismo, no século XVI, com Francisco de Holanda;
  • a defesa da liberdade humana perante o rígido determinismo luterano com Pedro da Fonseca e Luis de Molina, nos alvores da divisão da Europa entre católicos e protestantes;
  • a defesa do direito de revolta ativa e da soberania inicial do povo com os tratadistas políticos da Restauração;
  • a matriz jesuítica dos Conimbricenses que projetaram a escolástica portuguesa na Europa do século XVII;
  • os debates sobre o direito de navegação nos mares longínquos ao longo do século XVII, com relevo para Serafim de Freitas;
  • os paradigmas do barroco em António Vieira, bem como a defesa dos direitos dos povos descobertos na base no jusnaturalismo;
  • a dinâmica das Luzes no século XVIII e as grandes polémicas sobre as vias de modernização do país ao longo do século XVIII, postulando dramas de alternativa dos quais somos hoje herdeiros;
  • os debates entre cientismo e metafísica na Geração de 70, bem como entre progresso e decadência, equacionando o país perante uma mítica ideia de Europa, com destaque para Antero e Oliveira Martins;
  • o triunfo do positivismo na sua expressão doutrinal e política, vencendo os ténues assomos do inicial movimento socialista português;18206 02
  • a emergência da heterodoxia com Sampaio Bruno e a sua continuidade em Teixeira de Pascoaes, numa cosmicidade que se abre a um naturalismo vincado, e se prolonga na ênfase atribuída ao saudosismo;
  • a reflexão sobre os destinos de Portugal e sobre as alternativas da nossa história com a Renascença Portuguesa, com Pascoaes, Fernando Pessoa, António Sérgio, Jaime Cortesão ou Agostinho da Silva;
  • os rumos do pensamento existencial de Raul Brandão a Vergílio Ferreira, passando por Delfim Santos e António Quadros;
  • a emergência do «socialismo democrático» e de uma ética da liberdade em autores como Raul Proença e António Sérgio, vincando ainda a forte presença do ensaio na nossa cultura, seja com Sérgio, seja ainda com Sílvio Lima.

Estes temas, sucintamente enunciados, bem como os restantes que se referenciam neste programa, embora não esgotem o vasto plano em que se integram, permitirão orientar sessões de trabalho, razão pela qual se incluem, a propósito de cada um, os principais elementos bibliográficos. A este respeito, sempre que existam obras gerais com bibliografia ampla e de fácil consulta, remetemos para elas, sendo de destacar a página "Filosofia Portuguesa" (organizada por Pedro Calafate), bem como a História do Pensamento Filosófico Português, dir. de Pedro Calafate, Lisboa, ed. Caminho, 1999 e ss.

Sublinha-se ainda que muitos dos autores enunciados pertencem também à cultura de múltiplos países europeus (a Itália para Sto. António, Pedro Hispano, Vernei ou Leão Hebreu; a França para Francisco Sanches; a Rússia e a Holanda para Ribeiro Sanches, a diáspora hebraica na Holanda, Castro Sarmento em Inglaterra...) podendo constituir tema oportuno de abordagem nos países em causa.

É ainda de notar, a este respeito, que autores como Santo António alcançaram uma projeção destacada na República Checa e na Polónia, o mesmo sucedendo a Vernei para o caso da Espanha e alguns países da América do Sul.

 

 

 

Tópicos neste artigo:
Camões, I.P.
Usamos cookies no nosso site para lhe proporcionar uma melhor experiência de utilização.